Crash (David Cronenberg – 1996)

Aviso: aqui você vai encontrar muitos pensamentos confusos e idéias soltas. Não fiz muitas revisões desse texto.

Assistir Crash foi para mim a junção de dois lados opostos simultaneamente: ver um filme muito simples e ver um filme muito intrigante. Simples, pois as imagens são simples, sem grandes metáforas que dão abertura para diversas teorias que tantos críticos adoram fazer (não que essa simplicidade seja um defeito). Intrigante, por alguns elementos “estranhos” no filmes, como: as expressões do atores, principalmente da esposa de Ballard, que trazia um olhar sempre distante e imparcial em seus diálogos. Obviamente, qualquer elemento que traga certo desconforto ao espectador, é proposital.

Coloquei a palavra ‘estranhos’ entre aspas, pois (geralmente) não acredito nessa relação de estranheza na arte. Estranho em relação a que? Até o subtítulo adicionado ao filme aqui no Brasil reduz a magnitude que o filme venha a ter, além de chamar certos espectadores a ver o filme apenas por se tratar de “estranhos prazeres”.

O que deve ser feito, primeiramente, é retirar essa idéia de estranho e normal quando se pretende assistir Crash. Li algumas críticas em que os autores declaravam que o filme causa desconforto, incômodo. Felizmente, a mim não causou. E, para mim, apesar da mensagem parecer pobre, um dos “choques” que o filme pode querer dar em quem assiste é que as fantasias sexuais são encaradas com total naturalidade.

Em Crash, a busca pelo prazer sexual é incansável, representada pela frase marcante: “talvez da próxima vez…”. Porém, de forma alguma, essa busca é exposta de uma forma banal, vulgar ou fútil. Para os personagens, é onde está o centro de toda a história: a satisfação pessoal. Crash deveria dá uma sacudida na mente de tantas pessoas conservadoras. Mas tudo isso, são apenas divagações que o filme me fez pensar.

Sobre a história (detesto fazer sinopse). Para muitos, a cena inicial causa um impacto. Se você ficar interessado, vão lhe chamar de pervertido; se você ficar assustado, vão lhe chamar de ‘careta’. Blé, como se eu ligasse para isso. Sim, o filme me chamou atenção desde o começo e me fez ficar interessada: uma mulher extremamente (Catherine Ballard) sensual fazendo sexo com um estranho numa sala repleta de aviões (ou são helicópteros? Esqueci!) te deixa no mínimo intrigado(a) para saber o desenrolar da história.

Continuando, James Ballard é um diretor de cinema casado com Catherine Ballard, e tem um relacionado totalmente não convencional com sua esposa: ambos têm aventuras extraconjugais com o consentimento dos dois lados. Ballard sofre um acidente de carro, e conhece Holly Hunter. No decorrer da trama, ambos descobrem uma paixão por acidentes de carros, e participam de uma espécie de clube onde pessoas se reúnem para simular famosos acidentes de carros, como por exemplo, o que levou à morte do astro James Dean. Dentre eles, Vaughan, é como se fosse o ‘líder’ do grupo, e o mais ‘lunático’ também.

Obviamente, os personagens em Crash são explicitamente outsiders.  Atrevo-me a dizer que talvez isso seja até um erro, pois assim, dá margem para que o fetiche que eles têm possa ser interpretado com mais estranheza ainda.

A partir daí, o limite entre a vida e a morte; a incerteza da continuidade da vida que um carro em alta velocidade pode dar aumenta o prazer para eles. Prazer em alta velocidade: é o que eles querem.

As cenas eróticas são tão bem elaboradas, são lindas! Sim, por que não? Não vi em nenhuma crítica por aí elogiar a sensualidade pulsante do filme, e que não é vulgar. Acho que até a palavra ‘erótico’ já banaliza a obra de Cronenberg, não é um filme sobre sexo, é um filme sobre o prazer, prazer esse que todos procuram, todos sentem.

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Naked Lunch – David Cronenberg, 1991

“É uma viagem muito literária. […] É uma viagem kafkiana, você se sente como um inseto.”

Primeiros esclarecimentos: eu não cheguei a ler o livro (Naked Lunch), escrito por Williams Burroughs (que deu origem ao filme). Portanto, aqui, falarei apenas das sensações que tive com a obra de David Cronenberg. E devo dizer que, se você está procurando ter uma viagem psicodélica e não quer alguns ácidos e seus companheiros do submundo passeando por sua corrente sangüínea, então, basta assistir Mistérios e Paixões.

Em Naked Lunch (Mistérios e Paixões) a fotografia escura não permite que identifiquemos claramente todos os elementos nas cenas, o que dá uma sensação de suspense arrepiante. Um filme noir, surreal, a literatura beat, marginal, um certo realismo expostos de forma alucinógena de Burroughs trazidos para imagens igualmente alucinógenas. Tudo isso solto na tela e rodeado por um jazz que oscila entre suave e frenético. O sax tocando ao fundo na abertura e em boa parte do filme me causou uma estranha agonia, senti como se fossem os pensamentos do personagem dançando um jazz psicodélico. A história no filme, condensa um pouco da vida do próprio William Burroughs e do livro Naked Lunch. Então, para melhor compreensão do filme, é bom que se saiba um pouco da vida de Burroughs.

– Pensava que já não fazia coisas estranhas. – William Lee

– Eu também pensava, mas acho que me enganei. – Joan Lee

Trocar uma arma por uma máquina de escrever, o que pode significar? Pode não ser nada além de um personagem muito pobre que possui como valioso uma antiga arma com a qual ele usava para jogos um tanto macabros com sua mulher. Ou, eu posso estar querendo ver mensagens subliminares onde não existem e imaginar que signifique “Faça poemas, não faça guerra!”.

– Eu sofro de alucinações esporádicas. – William Lee.

– Junte-se ao clube! – Joan Frost

Não estou muito interessada em contar a sinopse do filme, é uma ficcção poética, digamos assim. Eu gosto de deixar bem claro que o que escrevo sobre filmes não é nada além de uma opinião não-concreta. Tudo é muito “ausente”, os personagens às vezes parecem vagar pelas ruas como se não pertencessem ao filme. Isso não é um defeito, pois, no contexto, nós vagamos na ruas da nossa vida muitas vezes como se ela (a vida) não fosse nossa.