Crash (David Cronenberg – 1996)

Aviso: aqui você vai encontrar muitos pensamentos confusos e idéias soltas. Não fiz muitas revisões desse texto.

Assistir Crash foi para mim a junção de dois lados opostos simultaneamente: ver um filme muito simples e ver um filme muito intrigante. Simples, pois as imagens são simples, sem grandes metáforas que dão abertura para diversas teorias que tantos críticos adoram fazer (não que essa simplicidade seja um defeito). Intrigante, por alguns elementos “estranhos” no filmes, como: as expressões do atores, principalmente da esposa de Ballard, que trazia um olhar sempre distante e imparcial em seus diálogos. Obviamente, qualquer elemento que traga certo desconforto ao espectador, é proposital.

Coloquei a palavra ‘estranhos’ entre aspas, pois (geralmente) não acredito nessa relação de estranheza na arte. Estranho em relação a que? Até o subtítulo adicionado ao filme aqui no Brasil reduz a magnitude que o filme venha a ter, além de chamar certos espectadores a ver o filme apenas por se tratar de “estranhos prazeres”.

O que deve ser feito, primeiramente, é retirar essa idéia de estranho e normal quando se pretende assistir Crash. Li algumas críticas em que os autores declaravam que o filme causa desconforto, incômodo. Felizmente, a mim não causou. E, para mim, apesar da mensagem parecer pobre, um dos “choques” que o filme pode querer dar em quem assiste é que as fantasias sexuais são encaradas com total naturalidade.

Em Crash, a busca pelo prazer sexual é incansável, representada pela frase marcante: “talvez da próxima vez…”. Porém, de forma alguma, essa busca é exposta de uma forma banal, vulgar ou fútil. Para os personagens, é onde está o centro de toda a história: a satisfação pessoal. Crash deveria dá uma sacudida na mente de tantas pessoas conservadoras. Mas tudo isso, são apenas divagações que o filme me fez pensar.

Sobre a história (detesto fazer sinopse). Para muitos, a cena inicial causa um impacto. Se você ficar interessado, vão lhe chamar de pervertido; se você ficar assustado, vão lhe chamar de ‘careta’. Blé, como se eu ligasse para isso. Sim, o filme me chamou atenção desde o começo e me fez ficar interessada: uma mulher extremamente (Catherine Ballard) sensual fazendo sexo com um estranho numa sala repleta de aviões (ou são helicópteros? Esqueci!) te deixa no mínimo intrigado(a) para saber o desenrolar da história.

Continuando, James Ballard é um diretor de cinema casado com Catherine Ballard, e tem um relacionado totalmente não convencional com sua esposa: ambos têm aventuras extraconjugais com o consentimento dos dois lados. Ballard sofre um acidente de carro, e conhece Holly Hunter. No decorrer da trama, ambos descobrem uma paixão por acidentes de carros, e participam de uma espécie de clube onde pessoas se reúnem para simular famosos acidentes de carros, como por exemplo, o que levou à morte do astro James Dean. Dentre eles, Vaughan, é como se fosse o ‘líder’ do grupo, e o mais ‘lunático’ também.

Obviamente, os personagens em Crash são explicitamente outsiders.  Atrevo-me a dizer que talvez isso seja até um erro, pois assim, dá margem para que o fetiche que eles têm possa ser interpretado com mais estranheza ainda.

A partir daí, o limite entre a vida e a morte; a incerteza da continuidade da vida que um carro em alta velocidade pode dar aumenta o prazer para eles. Prazer em alta velocidade: é o que eles querem.

As cenas eróticas são tão bem elaboradas, são lindas! Sim, por que não? Não vi em nenhuma crítica por aí elogiar a sensualidade pulsante do filme, e que não é vulgar. Acho que até a palavra ‘erótico’ já banaliza a obra de Cronenberg, não é um filme sobre sexo, é um filme sobre o prazer, prazer esse que todos procuram, todos sentem.

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Naked Lunch – David Cronenberg, 1991

“É uma viagem muito literária. […] É uma viagem kafkiana, você se sente como um inseto.”

Primeiros esclarecimentos: eu não cheguei a ler o livro (Naked Lunch), escrito por Williams Burroughs (que deu origem ao filme). Portanto, aqui, falarei apenas das sensações que tive com a obra de David Cronenberg. E devo dizer que, se você está procurando ter uma viagem psicodélica e não quer alguns ácidos e seus companheiros do submundo passeando por sua corrente sangüínea, então, basta assistir Mistérios e Paixões.

Em Naked Lunch (Mistérios e Paixões) a fotografia escura não permite que identifiquemos claramente todos os elementos nas cenas, o que dá uma sensação de suspense arrepiante. Um filme noir, surreal, a literatura beat, marginal, um certo realismo expostos de forma alucinógena de Burroughs trazidos para imagens igualmente alucinógenas. Tudo isso solto na tela e rodeado por um jazz que oscila entre suave e frenético. O sax tocando ao fundo na abertura e em boa parte do filme me causou uma estranha agonia, senti como se fossem os pensamentos do personagem dançando um jazz psicodélico. A história no filme, condensa um pouco da vida do próprio William Burroughs e do livro Naked Lunch. Então, para melhor compreensão do filme, é bom que se saiba um pouco da vida de Burroughs.

– Pensava que já não fazia coisas estranhas. – William Lee

– Eu também pensava, mas acho que me enganei. – Joan Lee

Trocar uma arma por uma máquina de escrever, o que pode significar? Pode não ser nada além de um personagem muito pobre que possui como valioso uma antiga arma com a qual ele usava para jogos um tanto macabros com sua mulher. Ou, eu posso estar querendo ver mensagens subliminares onde não existem e imaginar que signifique “Faça poemas, não faça guerra!”.

– Eu sofro de alucinações esporádicas. – William Lee.

– Junte-se ao clube! – Joan Frost

Não estou muito interessada em contar a sinopse do filme, é uma ficcção poética, digamos assim. Eu gosto de deixar bem claro que o que escrevo sobre filmes não é nada além de uma opinião não-concreta. Tudo é muito “ausente”, os personagens às vezes parecem vagar pelas ruas como se não pertencessem ao filme. Isso não é um defeito, pois, no contexto, nós vagamos na ruas da nossa vida muitas vezes como se ela (a vida) não fosse nossa.

No Direction Home – Scorsese

No Direction Home é o único documentário que vi sobre Bob Dylan, então não há como comparar com outros, no entanto, é possível perceber a fidelidade e sinceridade com a qual o filme foi feito. É um documentário completo para os fãs de Bob Dylan e também para quem quer conhecer um pouco sobre Robert Zimmerman, o homem que é o rock star, que é poeta, que nos encanta. Sim, conhecer apenas um pouco, Joan Baez fala abertamente no documentário que Bob Dylan é um dos seres humanos mais complexos que ela já encontrou. O filme é recheado de depoimentos de pessoas que conviveram com Bob Dylan durante sua carreira: músicos, produtores, namoradas, amigos, o poeta Allen Ginsberg é um deles (sou grande fã desse poeta, não que isso caiba aqui, mas vou fugir do assunto e dizer que: leiam Allen Ginsberg!). No Direction Home também traz entrevistas e pedaços dos shows mais polêmicos que Bob Dylan fez, principalmente na época em que ele foi muito criticado por começar a usar guitarra elétrica e uma banda de apoio. O condenaram, o chamaram de Judas, de traidor (do movimento folk e das músicas de protesto). O mais encantador é que Dylan soube passar por essa fase de um modo totalmente consciente de seus próprios ideais, do que estava e queria continuar fazendo, ele respondia as vaias e as perguntas idiotas dos repórteres com bom humor e ironia, e sabia quem ele era e o que queria, Bob Dylan não foi um produto e nem se vendou a ninguém, fizeram dele uma imagem, fizeram dele um produto que ele próprio não queria ser. Mas Bob não é um herói invencível, ele confessa que se sentiu confuso com tudo aquilo, que teve vontade de lagar tudo, que ficou decepcionado, mas ninguém diz a uma estrela quando ela deve brilhar nem por qual caminho ela deve ir, não é?

“How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?”

The Royal Tenenbaums – Wes Anderson, 2001

Resumidamente eu poderia dizer que The Royal Tenenbaums é um filme ao estilo de “Uma Vida Iluminada”, “Eu, você e todos nós” e “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”: alguns acontecimentos por mais comuns que sejam são referidos  pela voz off ou por uma personagem e daí insere-se uma seqüência com a ilustração do sucedido; personagens peculiares e cativantes (daqueles que ao fim da estória parecem que se tornaram seus amigos); e um humor sutil que deixa o filme divertido sem ser nem um pouco idiota. E realmente essa forma de contar torna o filme especial.

Então, “Senta que lá vem história”

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Royal Tenenbaum (interpretado por Gene Hackman, e sim, Royal é o primeiro nome dele) é o pai da família Tenenbaum, composta pela mãe Etheline Tenenbaum (Angelica Huston) e os três filhos Margot, Chas e Richie (Gwyneth Paltrow, Ben Stiller e Luke Wilson, respectivamente); que foram crianças prodígio, mas que se desvaneceram ao crescer.

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Royal é um tremendo cara de pau que sempre diz a coisa errada na hora errada (mas isso o torna bem engraçado). Foi um péssimo marido e um pai ainda pior, mas… não por mal.

A trama começa com a separação de Royal a Etheline e a partir daí, cada um da família vai seguindo sua vida…

Quando Sherman (Danny Glover), contabilista de Etheline, lhe propõe casamento, todos os filhos voltam para a casa, afinal “nada como o nosso lar”; então, Royal decide que é hora de reconstruir a sua família e “descobrindo” que está prestes a morrer de câncer, sendo o seu último desejo reunir-se com a família.

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Deixando essa sinopse mal contada de lado (isso pode se encontrar em qualquer lugar) e voltando as minhas impressões sobre o filme, ele vale, também, pelos atores e as suas interpretações. Cada um muito bem trabalhado, assim, como a própria estória foi bem conduzida até o fim.

Alguns detalhes: o filme se passa como se fosse um livro sendo lido, ou contado, (com um prólogo, uma introdução de personagens e um epílogo, usando títulos e legendas) fazendo pequenos intervalos para contar casos específicos, ou flashbacks de episódios da vida das personagens.

Por fim, o tema “família” nunca será algo chato, ainda mais quando se trata de uma tão excêntrica quanto a dos Tenenbaums. O filme mostra como em todo lar cada um tem seus traumas, seu defeitos, paranóias, com inseguranças e medos e que cometem erros e magoam outras pessoas. Todas as personagens magoaram umas às outras de alguma forma, e, sobretudo, todas foram magoadas e desiludidas por Royal Tenenbaum. Tudo isso fala, sobretudo, de redenção, e com isso temos um ótimo filme.

E apesar de eu falar como se fosse um filme comum, este não é. Talvez dentre o círculo de filmes mais “alternativos” (não gostar desse rótulo) talvez ele até seja, mas dentre os milhares de filmes com produção estadunidense que quando abordam esse tema vêm sempre cheios daqueles melodramas tirados de livros de auto-ajuda, os Tenenbaums fogem a isso.

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Um Pouco da Trilha Sonora, que é outra preciosidade do filme:

# “Hey Jude” by The Mutato Muzika Orchestra

# “Look at Me” by John Lennon

# “These Days” by Nico

# “Police & Thieves” by The Clash

# “Wigwam” by Bob Dylan

# “Lullabye” by Emitt Rhodes

# “Raleigh & Margot” by Mark Mothersbaugh

# “Me and Julio Down by the Schoolyard” by Paul Simon

# “Billy – Main Title” by Bob Dylan

# “Judy is a Punk” by The Ramones

# “Needle in the Hay” by Elliott Smith

# “Fly” by Nick Drake

# “She Smiled Sweetly” by The Rolling Stones

# “Ruby Tuesday” by The Rolling Stones

# “Stephanie Says” by The Velvet Underground

# “Rock the Casbah” by The Clash

# “The Fairest Of The Seasons” by Nico

# “Everyone” by Van Morrison

P.S. Eu quase choro quando tocou Elliot Smith

Por: Nádia Camuça

S de Sonho.

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V de Vingança.
– do original: V for Vendetta.
“O artista usa a mentira para contar a verdade e os políticos, para encobrí-la.”

Superficialmente, eu poderia dizer que é um filme sobre uma HQ.
Americano.
Fantasioso.
E terminar esse post por aqui.
Mas eu não posso.

V de Vingança surpreende.
Tira a péssima impressão que o nome dá.
Daqueles filmes da “Tela Quente”, que os efeitos vão explodir na sua cara.
Explode, mas não os efeitos.
A esperança.
– “Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras; são perspectivas!”

Codinome V não é um vingador.
Por mais que isso pareça.
Novamente, olhando de forma superficial.
V é um sonhador.
Ou mais, um realizador de sonho.

Pessoa desconhecida.
Vítima de campos de concentração e teste científicos.
Sobrevivente.
Usa máscara de Guy Fawkes, o velho satirizado.
Para esconder as marcas de seu sofrimento e a razão de sua “vingança”.

Num futuro alternativo, em que vemos claramente a sombra de nosso passado real, situa-se a história.
– Quem não vê Hitler em Sutler?
A Inglaterra vive presa.
Esconde-se no toque de reconher.
Respira o medo que mora no autoritarismo e na destruição do “anormal”.
Pessoas devem seguir um paradigma imposto.
– “Estamos presos ao modelo, somos parte dele.”
Sucumbir as ordens.
E fingir que vivem felizes.
V reativa a esperança de que é possível lutar contra intolerância.
Contra padrões prontos.
E a dominação da mídia.

Em Hammond, vemos a reconstrução.
O renascimento.
A prova de que podemos nos recriar a partir da dor.
Quando aceitamos o que somos.
E abraçamos nosso ideal.
Defendendo-o até a morte.
Por isso, com ela, (re)nasce também a confiança.
E a certeza.

Ao fim, fica a idéia.
E o sonho.
A idéia de revolução.
Para nossa sorte, “um homem pode morrer, lutar, falhar, até mesmo ser esquecido, mas sua idéia pode modificar o mundo mesmo tendo passado 400 anos”.
“As idéias são a prova de balas”.

Por: Joon.

Do Sonho à realidade.

Requiem for a Dream é um daqueles filmes que te deixa pasmo quando você termina de assistir, te causa vertigens e fascinação, é como uma viagem surreal pelo Reino do Sonho e de repente te suga para mais cruel realidade. Marcante desde o título até a última cena, uma cerimônia fúnebre à morte de um sonho.

Diferente dos outros filmes que retratam esse tema, em Réquiem, a atmosfera vai se tornando mais densa ambientada por uma trilha sonora fantástica produzida por Clint Mansell. Considero as trilhas sonoras partes fundamentais dos filmes, elas criam todo um clima entre o espectador e a história, e Mansell soube fazer isso muito bem.

Esteticamente a película também é surpreendente. Há cenas que são retratadas de maneira inovadora em que o personagem vai do deleite ao delírio, da ingênua felicidade ao desespero; o diretor Darren Aronofsky não mostra o fato em si, e sim a percepção que os personagens têm do fato, os sentimentos e sensações deles em relação ao que acontece, fazendo com que o espectador entre realmente no drama do filme.

O filme começa narrando a trajetória de quatro pessoas:

Harry Goldfarb (Jared Leto) é um jovem viciado em heroína, que namora a bela e rebelde Marion (Jennifer Connelly), juntos se drogam, sonham montar uma loja e ser felizes para sempre. rfd

Tyrone (Marlon Wayans) é o seu melhor amigo e assim como eles também usuário de drogas. O grande sonho de Tyrone é fazer o que prometeu quando pequeno à sua mãe : “Ser alguém na vida…”.

Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) é mãe de Harry, uma viúva que esconde sua solidão no seu vicio pela tevê, assistindo programas populares. A excelente atuação de Ellen Burstyn emociona, provavelmente a historia mais forte do filme. Um dia Sara recebe uma ligação avisando que ela foi sorteada para aparecer no seu programa favorito, assim ela cria uma obsessão que acaba levando-a a decadência.

nNum dialogo com Harry, Goldfarb desabafa:

“Eu sou alguém agora Harry, todos gostam de mim, breve, milhões de pessoas irão me ver e gostar de mim. Contarei a eles sobre você, seu pai […]. É uma boa razão para eu me levantar de manhã, é uma boa razão para perder peso e caber no vestido vermelho, é uma razão para sorrir e me faz acreditar no futuro. O que eu tenho Harry? Para que devo fazer a cama, lavar os pratos? Eu faço, mas para quê? Estou sozinha. Seu pai foi embora, você foi embora, não tenho ninguém de quem cuidar.[…] Gosto de pensar no vestido vermelho e na televisão… agora quando eu vejo o sol, eu sorrio”.

Os destinos de todos os personagens parecem fadados às desgraças da vida real e você sente que algo ruim irá acontecer a qualquer momento. Eles se enganam. Chega a ser comovente o casal Harry e Marion prometendo um ao outro a 600km de distância que tudo ficará bem, mesmo cada um sabendo que não vai ficar. Mas quem já não tentou se enganar na vida?

Absorvidos pelo abraço frio do Inverno os personagens degradam, os finais acontecem ao mesmo tempo, a câmera frenética e as sequencias das cenas vão ficando mais rápidas como se a realidade os tivesse puchado de uma grande altura e eles caem. A música final é como uma estranha canção de ninar, cada um se encolhe como um bebê, tentando se proteger, querendo um pouco de proteção ou apenas tentando ainda guardar algo bom.

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Por: Nádia Camuça

‘Donnie Darko’, roteiros originais são o cinema que amo.

Apenas um ‘apocalipse particular, pessoal, individual e íntimo’, essa seria a conclusão inteligentíssima da metade dos cinéfilos que conheço. A outra metade não se pronunciou e prefiro o silêncio destes, apesar de o silêncio já não ser mais algo original e inédito e de meu silêncio vir cheio de palavras escritas.

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“28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos para o fim do mundo”. Esse é todo o tempo que Donnie dispõe pra nos mostrar que ‘ser’ humano está além do que imaginamos

Donnie Darko é um filme pessoal, vide o título, pois é o nome de alguém. Um jovem com problemas comportamentais, psicologicamente desequilibrado, diagnosticado com esquizofrenia, desequilibrando suas ações e as dos outros ao seu redor, mas aqui vou escrever brevemente sobre o título, o sobrenome ‘Darko’. Teorizam ( e não defendo nenhuma delas) que ‘Darko’ significaria ‘sombrio’. Donnie Darko é um ser-humano e isso já é a mais maravilhosa condição de criatura, pois diz Sófocles “Muitas são as maravilhas do mundo, mas não há coisa mais admirável que o homem”, e Donnie o é.

Quem dera eu pudesse falar como se o conhecesse em carne e osso, mas ao assistí-lo (pois o personagem é o filme e o filme é o personagem) percebo que não há tanta escuridão no modo de ser deste jovem que procura apenas clarear um pouco a existência daqueles que o cercam: sua mãe, Rose Darko, que ainda o encara como criança; seu pai, Eddie Darko, um cínico verdadeiro que aprova todas as ações do filho; sua irmã mais velha, Elizabeth, que não vê além dos problemas mentais dele; e sua irmã mais nova, Samantha, que o teme. A proposta do filme é bem mais grandiosa, mas eu adoro abordar o aspecto menor, mais mundano do filme, pois minha visão de cinema é muito pessoal e ‘abduzida’.

A parte ficcional do filme é a que Donnie percebe como o tempo-espaço é estruturado e, com a ajuda de seu amigo imaginário Frank (um coelho de 2 metros de altura que salva suavida) e do livro ‘A Filosofia da Viagem no Tempo’ escrito por Roberta Sparow(a ‘ vovó morte’), ele consegue vislumbrar as intenções existenciais dos outros através do tempo-espaço. Gostaria de abordar melhor a parte ‘inexplicável’ do filme que é a viagem no tempo, mas nem mesmo Donnie encontra uma explicação concreta para si; e foi bom ter acontecido assim, pois ele mesmo diz: ”Há todo um espectro de emoções humanas, e a vida não pode se encerrar em apenas duas categorias”. As categorias seriam ‘medo’ e ‘amor’, lição maniqueísta  que a professora Ms. Farmer tenta mediocremente ensinar a seus alunos, e a mesma forma de educação é dada por um daqueles “donos da verdade” que gostam de dar palestras caríssimas de como ‘vencer na vida’, esse personagem chamado Jim Cunnigham seria o antagonista de Donnie, mas com certeza ele é mais do que um mero ‘vilão’. A cena em que Donnie trava um ácido diálogo com Jim Cunnigham mostra o que muitos de nós gostariamos de dizer para esses ‘caras perfeitos’, mas além desses, existem outros dois professores, Monitoff (física) e Ms. Pomeroy (professora de inglês) que tentam manter o ‘livre-pensar’ na educação americana mas são oprimidos pelo sistema escolar rígido dos E.U.A. da década de 80. O filme aborda muitos questionamentos da existência humana, e mostra isso em cada um dos personagens. Coisa que poucos filmes hoje em dia fazem: criar personagens que comuniquem os seus ideais com veracidade.

O filme é rico em ‘diálogos inteligentes’, mas como não gosto dessa caracterização para um roteiro bem trabalhado vou pedir para que esqueçam esse jargão pseudo-cinéfilo. Temos na verdade uma fluência na linguagem do filme, em que Donnie, mesmo falando com um vocabulário filosófico, consegue alcançar as mentes mais incapazes e aqueles de coração mais duro, vide o final para entender que Donnie conseguiu levar os demais personagens a sentirem que suas vidas não são tão simples e ‘legaiszinhas’. (perdão se parece que estou contando o final, mas as imagens são bem mais interessantes que minhas desinteressantes palavras).

Se disserem que é ‘apenas mais um filme de adolescente americano e seus problemas de puberdade’ eu concordarei, mas só pediria pra retirarem do início da frase em que diz ”é apenas mais um”, pois é um filme sim de adolescente americano e seus problemas de puberdade e deixar de avaliar seriamente que a adolescência é uma fase muito importante da vida seria descaso do diretor em contar a história de Donnie. Todos sabemos que o mais importante momento da fase adolescente é o amor (que pra mim é importante em qualquer fase da vida), e pra Donnie é a descoberta mais libertadora de sua mente e corpo, pois o envolvimento com a ‘mocinha’ Gretchen Ross o faz ter segurança até para desafiar a morte. E antes que você ou alguém evoque Romeu e Julieta por causa dessa minha frase acima, vou dizer pra sairmos de Shakespeare ao menos uma vez em nossa vida e notar que o amor não tem nome nem personagens, e mesmo sem essa linda realidade do amor Shakespeareano o amor entre Gretchen e Donnie é singelo e verdadeiro.

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GRETCHEN ROSS: ''Donnie Darko is a cool name. Sounds like a superhero''. / DONNIE DARKO: ''What makes you think I'm not?''. (Gretchen smiles)

Adoraria me estender muito mais para falar sobre o melhor filme com roteiro original que já assiti, mas não pretendo; pois muitos já bolaram dezenas de teorias caóticas acerca dele e de seus personagens, vide as comunidades na internet que o discutem; e continuar a teorizar é uma tarefa que não me agrada tanto. E pra finalizar vou citar o que Frank e Donnie conversam dentro do cinema(tinha que ser no cinema é claro!) enquanto Gretchen dorme, umas das cenas e diálogos mais lindos que já vi e ouvi:

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DONNIE: Why are you wearing that stupid bunny suit? (Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de coelho?)

FRANK: Why are you wearing that stupid Man suit?    (Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de Homem?).

E com essa linda ‘sacada’ do diretor Richard Kelly eu insisto em dizer, pois não sou imparcial, que Donnie Darko é um filme que fala principalmente sobre a incerteza de saber ‘ser’ um ser-humano.

A vida não tem roteiro. Donnie Darko me fez perceber isso e esteja onde estiver; passado, presente ou futuro; irei sempre ser grato a ele.

P.S: A trilha Sonora não necessita de comentários(pois tem ‘ The Killing Moon’ do Echo & The Bunnymen e a versão de ‘Mad World’ do Gary Jules, por isso fico calado. rs.) e o filme com certeza merece a célebre frase ”…só assistindo mesmo”.

TRILHA SONORA

1. Never Tear Us Apart – INXS

2. Head Over Heels – Tears For Fears

3. Under The Milky Way – The Church

4. Lucid Memory – Sam Bauer & Gerard Bauer

5. Lucid Assembly – Gerard Bauer & Mike Bauer

6. Ave Maria – Giulio Caccini & Paul Pritchard

7. For Whom The Bells Toll – Steve Baker & Carmen Daye

8. Show Me (Part 1) – Quito Colayeo & Tony Hertz

9. Notorious – Duran Duran

10. Stay – Oingo Boingo

11. Love Will Tear Us Apart – Joy Division

12. The Killing Moon – Echo & The Bunnymen

13. Mad World – Gary Jules

Direção e Roteiro:Richard Kelly

Ano:2001

Elenco: Jake Gyllenhaal

Holmes Osborne

Maggie Gyllenhaal

Noah Wyle

Drew Barrymore

Patrick Swayze

Jena Malone Mary

MacDonnell

Por: Davi