Naked Lunch – David Cronenberg, 1991

“É uma viagem muito literária. […] É uma viagem kafkiana, você se sente como um inseto.”

Primeiros esclarecimentos: eu não cheguei a ler o livro (Naked Lunch), escrito por Williams Burroughs (que deu origem ao filme). Portanto, aqui, falarei apenas das sensações que tive com a obra de David Cronenberg. E devo dizer que, se você está procurando ter uma viagem psicodélica e não quer alguns ácidos e seus companheiros do submundo passeando por sua corrente sangüínea, então, basta assistir Mistérios e Paixões.

Em Naked Lunch (Mistérios e Paixões) a fotografia escura não permite que identifiquemos claramente todos os elementos nas cenas, o que dá uma sensação de suspense arrepiante. Um filme noir, surreal, a literatura beat, marginal, um certo realismo expostos de forma alucinógena de Burroughs trazidos para imagens igualmente alucinógenas. Tudo isso solto na tela e rodeado por um jazz que oscila entre suave e frenético. O sax tocando ao fundo na abertura e em boa parte do filme me causou uma estranha agonia, senti como se fossem os pensamentos do personagem dançando um jazz psicodélico. A história no filme, condensa um pouco da vida do próprio William Burroughs e do livro Naked Lunch. Então, para melhor compreensão do filme, é bom que se saiba um pouco da vida de Burroughs.

– Pensava que já não fazia coisas estranhas. – William Lee

– Eu também pensava, mas acho que me enganei. – Joan Lee

Trocar uma arma por uma máquina de escrever, o que pode significar? Pode não ser nada além de um personagem muito pobre que possui como valioso uma antiga arma com a qual ele usava para jogos um tanto macabros com sua mulher. Ou, eu posso estar querendo ver mensagens subliminares onde não existem e imaginar que signifique “Faça poemas, não faça guerra!”.

– Eu sofro de alucinações esporádicas. – William Lee.

– Junte-se ao clube! – Joan Frost

Não estou muito interessada em contar a sinopse do filme, é uma ficcção poética, digamos assim. Eu gosto de deixar bem claro que o que escrevo sobre filmes não é nada além de uma opinião não-concreta. Tudo é muito “ausente”, os personagens às vezes parecem vagar pelas ruas como se não pertencessem ao filme. Isso não é um defeito, pois, no contexto, nós vagamos na ruas da nossa vida muitas vezes como se ela (a vida) não fosse nossa.

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