‘Donnie Darko’, roteiros originais são o cinema que amo.

Apenas um ‘apocalipse particular, pessoal, individual e íntimo’, essa seria a conclusão inteligentíssima da metade dos cinéfilos que conheço. A outra metade não se pronunciou e prefiro o silêncio destes, apesar de o silêncio já não ser mais algo original e inédito e de meu silêncio vir cheio de palavras escritas.

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“28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos para o fim do mundo”. Esse é todo o tempo que Donnie dispõe pra nos mostrar que ‘ser’ humano está além do que imaginamos

Donnie Darko é um filme pessoal, vide o título, pois é o nome de alguém. Um jovem com problemas comportamentais, psicologicamente desequilibrado, diagnosticado com esquizofrenia, desequilibrando suas ações e as dos outros ao seu redor, mas aqui vou escrever brevemente sobre o título, o sobrenome ‘Darko’. Teorizam ( e não defendo nenhuma delas) que ‘Darko’ significaria ‘sombrio’. Donnie Darko é um ser-humano e isso já é a mais maravilhosa condição de criatura, pois diz Sófocles “Muitas são as maravilhas do mundo, mas não há coisa mais admirável que o homem”, e Donnie o é.

Quem dera eu pudesse falar como se o conhecesse em carne e osso, mas ao assistí-lo (pois o personagem é o filme e o filme é o personagem) percebo que não há tanta escuridão no modo de ser deste jovem que procura apenas clarear um pouco a existência daqueles que o cercam: sua mãe, Rose Darko, que ainda o encara como criança; seu pai, Eddie Darko, um cínico verdadeiro que aprova todas as ações do filho; sua irmã mais velha, Elizabeth, que não vê além dos problemas mentais dele; e sua irmã mais nova, Samantha, que o teme. A proposta do filme é bem mais grandiosa, mas eu adoro abordar o aspecto menor, mais mundano do filme, pois minha visão de cinema é muito pessoal e ‘abduzida’.

A parte ficcional do filme é a que Donnie percebe como o tempo-espaço é estruturado e, com a ajuda de seu amigo imaginário Frank (um coelho de 2 metros de altura que salva suavida) e do livro ‘A Filosofia da Viagem no Tempo’ escrito por Roberta Sparow(a ‘ vovó morte’), ele consegue vislumbrar as intenções existenciais dos outros através do tempo-espaço. Gostaria de abordar melhor a parte ‘inexplicável’ do filme que é a viagem no tempo, mas nem mesmo Donnie encontra uma explicação concreta para si; e foi bom ter acontecido assim, pois ele mesmo diz: ”Há todo um espectro de emoções humanas, e a vida não pode se encerrar em apenas duas categorias”. As categorias seriam ‘medo’ e ‘amor’, lição maniqueísta  que a professora Ms. Farmer tenta mediocremente ensinar a seus alunos, e a mesma forma de educação é dada por um daqueles “donos da verdade” que gostam de dar palestras caríssimas de como ‘vencer na vida’, esse personagem chamado Jim Cunnigham seria o antagonista de Donnie, mas com certeza ele é mais do que um mero ‘vilão’. A cena em que Donnie trava um ácido diálogo com Jim Cunnigham mostra o que muitos de nós gostariamos de dizer para esses ‘caras perfeitos’, mas além desses, existem outros dois professores, Monitoff (física) e Ms. Pomeroy (professora de inglês) que tentam manter o ‘livre-pensar’ na educação americana mas são oprimidos pelo sistema escolar rígido dos E.U.A. da década de 80. O filme aborda muitos questionamentos da existência humana, e mostra isso em cada um dos personagens. Coisa que poucos filmes hoje em dia fazem: criar personagens que comuniquem os seus ideais com veracidade.

O filme é rico em ‘diálogos inteligentes’, mas como não gosto dessa caracterização para um roteiro bem trabalhado vou pedir para que esqueçam esse jargão pseudo-cinéfilo. Temos na verdade uma fluência na linguagem do filme, em que Donnie, mesmo falando com um vocabulário filosófico, consegue alcançar as mentes mais incapazes e aqueles de coração mais duro, vide o final para entender que Donnie conseguiu levar os demais personagens a sentirem que suas vidas não são tão simples e ‘legaiszinhas’. (perdão se parece que estou contando o final, mas as imagens são bem mais interessantes que minhas desinteressantes palavras).

Se disserem que é ‘apenas mais um filme de adolescente americano e seus problemas de puberdade’ eu concordarei, mas só pediria pra retirarem do início da frase em que diz ”é apenas mais um”, pois é um filme sim de adolescente americano e seus problemas de puberdade e deixar de avaliar seriamente que a adolescência é uma fase muito importante da vida seria descaso do diretor em contar a história de Donnie. Todos sabemos que o mais importante momento da fase adolescente é o amor (que pra mim é importante em qualquer fase da vida), e pra Donnie é a descoberta mais libertadora de sua mente e corpo, pois o envolvimento com a ‘mocinha’ Gretchen Ross o faz ter segurança até para desafiar a morte. E antes que você ou alguém evoque Romeu e Julieta por causa dessa minha frase acima, vou dizer pra sairmos de Shakespeare ao menos uma vez em nossa vida e notar que o amor não tem nome nem personagens, e mesmo sem essa linda realidade do amor Shakespeareano o amor entre Gretchen e Donnie é singelo e verdadeiro.

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GRETCHEN ROSS: ''Donnie Darko is a cool name. Sounds like a superhero''. / DONNIE DARKO: ''What makes you think I'm not?''. (Gretchen smiles)

Adoraria me estender muito mais para falar sobre o melhor filme com roteiro original que já assiti, mas não pretendo; pois muitos já bolaram dezenas de teorias caóticas acerca dele e de seus personagens, vide as comunidades na internet que o discutem; e continuar a teorizar é uma tarefa que não me agrada tanto. E pra finalizar vou citar o que Frank e Donnie conversam dentro do cinema(tinha que ser no cinema é claro!) enquanto Gretchen dorme, umas das cenas e diálogos mais lindos que já vi e ouvi:

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DONNIE: Why are you wearing that stupid bunny suit? (Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de coelho?)

FRANK: Why are you wearing that stupid Man suit?    (Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de Homem?).

E com essa linda ‘sacada’ do diretor Richard Kelly eu insisto em dizer, pois não sou imparcial, que Donnie Darko é um filme que fala principalmente sobre a incerteza de saber ‘ser’ um ser-humano.

A vida não tem roteiro. Donnie Darko me fez perceber isso e esteja onde estiver; passado, presente ou futuro; irei sempre ser grato a ele.

P.S: A trilha Sonora não necessita de comentários(pois tem ‘ The Killing Moon’ do Echo & The Bunnymen e a versão de ‘Mad World’ do Gary Jules, por isso fico calado. rs.) e o filme com certeza merece a célebre frase ”…só assistindo mesmo”.

TRILHA SONORA

1. Never Tear Us Apart – INXS

2. Head Over Heels – Tears For Fears

3. Under The Milky Way – The Church

4. Lucid Memory – Sam Bauer & Gerard Bauer

5. Lucid Assembly – Gerard Bauer & Mike Bauer

6. Ave Maria – Giulio Caccini & Paul Pritchard

7. For Whom The Bells Toll – Steve Baker & Carmen Daye

8. Show Me (Part 1) – Quito Colayeo & Tony Hertz

9. Notorious – Duran Duran

10. Stay – Oingo Boingo

11. Love Will Tear Us Apart – Joy Division

12. The Killing Moon – Echo & The Bunnymen

13. Mad World – Gary Jules

Direção e Roteiro:Richard Kelly

Ano:2001

Elenco: Jake Gyllenhaal

Holmes Osborne

Maggie Gyllenhaal

Noah Wyle

Drew Barrymore

Patrick Swayze

Jena Malone Mary

MacDonnell

Por: Davi

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4 Respostas para “‘Donnie Darko’, roteiros originais são o cinema que amo.

  1. Adoro esse filme. Adoro qdo o Frank retruca com “prq vc está vestindo essa fantasia ridícula de homem?”

    Produção independente muito bem feita!
    E adorei seu texto. parabéns

  2. Amo a teoria sobre os Smurfs.

    Parabéns, foi uma das melhores críticas que vi sobre o filme até hj. Tenho o DVD há uns 6 anos e até hoje não tive coragem de assistir S. Darko com medo de me decepcionar.

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